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 A moda das caveiras
A caveira pode simbolizar a vontade de voltar ao essencial, sem máscaras

Quando eu tinha uns 11, 12 anos, não sabia se queria ser escritor ou pintor. Cheguei a ousar umas horrendas paisagens a óleo. Mais tarde fiz cursos de desenho criativo. Enfim, as artes plásticas me acompanharam ao longo da vida. Há algum tempo, resolvi fazer caveiras. Fazer é modo de falar, já que os escultores nem sempre são os realizadores finais das obras, mas idealizadores. Comprei caveiras de resina de uma empresa que fornece para uso em escolas. Descobri com dificuldade um ateliê que faz roupas para carnavalescos. Comprei cristais Swarovski. E “fiz” caveiras de cristais colados um a um, pretas, brancas, e até ousei outras cores. Todos que vêm a minha casa adoram, cheguei a dar algumas de presente. Um sucesso. Tanto que um amigo, Luiz Carlos Began, dono de um antiquário e da Baccarat, convidou-me para expor as caveiras, em edição limitada e numerada. Coquetel, lançamento. Eu me senti o máximo e já me via nas páginas da Casa Vogue. Faz uns dois anos. Mas aí fui para Amsterdã. Caminhava por uma rua repleta de galerias quando numa vitrine eu vi... as minhas caveiras! Voei para dentro.

Não eram exatamente as mesmas. Muito parecidas. Cobertas por um tecido brilhoso, de acabamento, juro, inferior às minhas. Mas a assinatura, ah, a assinatura! Era do Damien Hirst, considerado um dos maiores artistas vivos. Sim, eu me havia inspirado nele, que criou uma absurdamente milionária caveira coberta com brilhantes. Creio que a obra de arte atual mais cara do mundo. As caveiras do Damien vinham acompanhadas de um livrinho, sobre seu trabalho com crânios. Custavam uma grana em euros. O esperto havia popularizado sua caveira original! Eu não podia mais fazer meu coquetel. Diriam que estava copiando!

Só então descobri que as caveiras entraram na moda. Fui para a França e comprei a obra de outro artista, uma caveira negra coberta de mariposas. Lindíssima, embora a descrição aqui possa parecer assustadora. Uma outra de cristal. Meu amigo Began, ele de novo, me presenteou com um aparelho de som em forma de uma gigantesca caveira. Incrível. Outro amigo me deu uma caveira de pedra, encontrada na internet.

É fascinante como algo entra na moda. Caveiras sempre foram prestigiadas em grupos de rock. Entre os góticos, darks, punks. É a primeira vez que uma moda iniciada num nicho tão especial conquista as diversas classes sociais. Flávio, outro amigo, me trouxe uma camiseta com caveira, que eu sei que não custou muito. Mas que fica ótima. Em compensação, numa coleção deste ano, a Dolce & Gabbana lançou uma camisa polo coberta de caveirinhas. Comprei. Um amigo me deu uma bijuteria com uma caveirazinha negra. Outro usa um anel com uma enorme caveira, que toma o dedo todo. Caveiras são chiques, estéticas. A dona de uma importante galeria de São Paulo me disse:

– Caveiras estão com tudo.

Outro dia na aula de ioga fiz uma posição estranha, mas na qual me achei muito confortável. O professor explicou.

– Essa é a posição de Kali. Uma deusa que usa um colar de caveiras.

Kali é também uma deusa da destruição. A palavra destruição em si parece assustadora. Mas, quando usada no sentido esotérico, pode significar o fim para o novo começo. Nem sempre a carta da Torre sendo destruída por um raio no tarô, considerada péssima para os iniciantes, é de fato ruim. A Torre pode ruir, para depois se fazer um edifício melhor. É assim que se interpreta o mito da destruição, não como o fim, mas como a chance de um recomeço.

A moda das caveiras pode simbolizar algo assim. A vontade de voltar ao essencial, sem máscaras. Em Hamlet, de Shakeaspeare, quando o príncipe olha uma caveira, numa cena antológica, pergunta:

– Ser ou não ser? Eis a questão.

Na caveira, resta a grande verdade sobre todos nós. Temos um tempo para existir. Para realizar. Tudo termina, desaparece. Grandes questões de ego, vaidades, desaparecerão como pó, como já se foram civilizações inteiras.

Talvez a moda das caveiras, que a princípio pode parecer aterrorizante, até doentia, seja na verdade salutar. As pessoas estão, mesmo que através da arte (e não é para isso que existe a arte, afinal?) e da moda, fazendo um grande questionamento íntimo.

Seja como for, eu aderi. Se tivesse brinquinho de caveira, usava. É uma moda, uma estética. Mas o mundo se renova. Em breve, talvez sejam anjos. Por via das dúvidas, também comprei uma camiseta com umas asas desenhadas. De caveira a anjo, nunca se sabe.

Fonte: epoca.globo.com/
 
 
 
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